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Medido, não imposto: o escritório brasileiro em 2027

Foto do escritor: Marcia Martini Ferrari
Marcia Martini Ferrari
2 de set.
5 min de leitura

A frequência ao escritório voltou a subir no Brasil. Itaú, Nubank e Bradesco anunciaram, em sequência, novas exigências de presença; a vacância de lajes corporativas em São Paulo caiu para o menor nível desde antes da pandemia; e a absorção líquida de escritórios na capital paulista retomou patamares próximos do recorde histórico de 2019.

O problema é que, na maioria das empresas, essa volta ao presencial está sendo decidida no escuro.

A experiência internacional — e os números locais — mostram que sempre superestimamos o quanto as pessoas realmente estão no escritório. A utilização nunca foi tão alta quanto imaginávamos antes da pandemia, e não é tão alta agora. O movimento de retorno ao escritório (RTO) não resolveu esse problema; apenas o recolocou em cena. Para 2027, a questão não será quantos dias os funcionários devem comparecer, mas como medir, com precisão, o que acontece dentro do espaço que pagamos.

Este artigo propõe um paralelo entre as premissas que vêm orientando a estratégia de workplace global e o momento específico do mercado brasileiro — e o que isso significa para quem decide sobre imóveis, facilities e experiência corporativa no próximo ano.



Escritório aberto com equipes colaborando, telas e quadro branco com IDEAS, COLABORAÇÃO, INOVAÇÃO e PESSOAS.

O Brasil está vivendo o mesmo ciclo, com um atraso de alguns trimestres

O padrão que se desenhou nos Estados Unidos e na Europa está se repetindo por aqui, em ritmo acelerado. Depois de anos de home office, grandes companhias brasileiras inverteram a rota:

  • O Bradesco encerrou o trabalho remoto para cerca de 900 funcionários no início de 2026 e já opera com metade dos seus 82 mil colaboradores em modelo híbrido ou presencial.

  • O Nubank, que era prioritariamente remoto, passou a exigir pelo menos dois dias presenciais por semana a partir de julho de 2026, com previsão de três dias em 2027.

  • O Itaú elevou a presença para três dias semanais (a partir de 2026) e, já em janeiro de 2027, os superintendentes passarão a quatro dias presenciais por semana.

O resultado aparece no mercado imobiliário. Em São Paulo, a vacância média caiu para cerca de 13% em meados de 2026, e a absorção líquida de escritórios superou 292 mil m² em 2025, aproximando-se do recorde de 2019. O setor financeiro lidera a tomada de espaços.

Mas há um dado que deveria incomodar qualquer gestor: segundo a JLL, a utilização real dos escritórios corporativos gira em torno de 54% — bem abaixo do que a maioria dos gestores imagina. Ou seja, quase metade do espaço pago fica ocioso todos os dias, mesmo com o presencial em alta.

É exatamente a mesma lacuna que o mercado global vem tentando fechar: a distância entre a percepção e a realidade.

O risco de decidir a volta ao presencial no escuro

Quando uma empresa aumenta a exigência de presença, ela costuma assumir que a utilização do espaço subirá na mesma proporção. A experiência mostra que isso raramente acontece.

Há casos reais em que a exigência de um dia extra por semana deveria gerar um aumento de 20% na utilização — e a mudança real foi de 2%. Quase nada. Ainda assim, as decisões de energia, manutenção, limpeza e investimento em capital são tomadas com base na suposição de que aquele aumento de 20% existe. A empresa paga caro por uma premissa que não se sustenta.

No Brasil, o efeito tende a ser ainda mais sensível, por dois motivos. Primeiro, porque o modelo híbrido está consolidado: segundo levantamento conjunto da McKinsey e da FGV, 73% das empresas brasileiras já operam em regime híbrido, com projeção de chegar a 85% até 2027, e a presença tende a se concentrar em alguns dias da semana. Segundo, porque a volta ao presencial é, em grande parte, imposta: cerca de 63% dos trabalhadores já estão em regime presencial, e a retomada forçada gera resistência e custos adicionais para os profissionais.

O que isso significa na prática? Que o escritório brasileiro está ficando mais cheio em determinados dias e horários, mas não necessariamente mais bem utilizado. A demanda se concentra em picos, enquanto o restante do espaço permanece ocioso. Quem não mede, não enxerga essa assimetria e continua pagando por metros quadrados que não geram valor.

Do espaço imposto ao espaço medido

A premissa central que atravessa toda a discussão global de workplace é simples: a otimização começa com visibilidade. Não existe modelo "certo" único — presencial, híbrido ou remoto podem funcionar, desde que apoiados por dados objetivos.

Isso muda a pergunta que os líderes deveriam fazer. Em vez de "quantos dias devemos exigir?", a pergunta certa é: "como nosso espaço está sendo realmente usado, e o que isso nos diz sobre energia, custo e experiência?"

Diferentes modelos de trabalho alteram fundamentalmente a demanda por espaço:

  • Quando os funcionários estão no escritório com mais frequência, os postos de trabalho individuais são usados de forma mais intensa.

  • Quando a presença se limita a alguns dias por semana, a demanda se desloca para os espaços de colaboração e reunião.

A utilização real, portanto, precisa ser a lente pela qual se tomam decisões de energia, despesas de capital e operações. Sem ela, as equipes de facilities e imobiliário continuam gerindo edifícios com base em suposições — e pagando por elas.

O papel da tecnologia e da inteligência de dados

É aqui que a tecnologia entra. Sensores de ocupação, contadores de pessoas e dados ambientais fornecem a camada de visibilidade que faltava. Eles mostram, em tempo real, quais postos estão ocupados, quando a demanda atinge o pico, como as salas de reunião se comportam e se as condições do ambiente afetam conforto e produtividade.

Mas dados, sozinhos, não bastam. O desafio que se coloca agora — e que define a agenda de 2027 — é transformar dados em decisão. É aí que a inteligência artificial ganha protagonismo: não para "impressionar" com painéis bonitos, mas para transformar volume de informações em recomendações acionáveis de espaço, agendamento e operação.

Para o mercado brasileiro, isso representa uma oportunidade concreta. Em um cenário de vacância em queda e preços de aluguel pressionados pela escassez de grandes lajes, cada metro quadrado bem utilizado tem impacto direto no resultado. A empresa que mede com precisão pode redesenhar layouts, ajustar o mix de espaços à demanda real e reduzir custos operacionais — sem abrir mão da experiência de quem trabalha.

O que muda em 2027

Olhando para o próximo ano, três movimentos devem definir a estratégia de workplace no Brasil:

  1. De mandato para otimização. As políticas de presença vão deixar de ser o centro da discussão. O foco migra para como extrair mais valor do espaço já existente, com dados de ocupação orientando energia, manutenção e investimento.

  2. De percepção para medição. Empresas que hoje estimam a utilização "de cabeça" passarão a medir com sensores e análise de dados. A lacuna entre o uso percebido e o real — que hoje chega a dezenas de pontos percentuais — se tornará visível e, portanto, gerenciável.

  3. De relatório para ação com IA. A inteligência artificial deixará de ser um tema de apresentação e se tornará ferramenta de decisão, recomendando ajustes de espaço, agendamento e operações com base em padrões reais de uso.

A próxima fase da transformação do local de trabalho brasileiro não será definida por mandatos nem por benefícios. Será definida pela capacidade de medir, adaptar e otimizar continuamente os ambientes, em alinhamento com as prioridades do negócio.

O escritório de 2027 não será o escritório mais imposto. Será o escritório mais bem medido — e, por isso, mais bem usado.


✭ Sobre a Neowrk 

A Neowrk conecta tecnologia e inteligência para transformar dados reais de ocupação em eficiência operacional, estratégia e melhor experiência nos espaços corporativos. Com a solução Neo.Office, empresas passam a tomar decisões de espaço, energia e operação com base em evidências, e não em suposições.

📲 (11) 99754-9405 |  🖥️ https://www.neowrk.com/ 

Marcia Ferrari MSc, Conselheira ABRAFAC, Professora MBA em Facilities da PUC-MG, Head Market Intelligence Neowrk.

 
 
 

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